YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 6

Atravessar a mata à cavalo não foi assim tão difícil, havia já uma trilha formada há muito tempo, pelo seu próprio povo, durante suas andanças por aquelas terras. Eva desceu do cavalo e ia puxando ele pelas rédeas. Não estava tão habituada àquele ambiente, de árvores altas e vegetação tão densa que a luz do sol mau chegava ao chão. Crescera na redução, correndo pelas campinas ao redor, pouco se aventurava nas florestas mais próximas. Tentava se acostumar com a ideia de que ali seria sua nova casa. Não parecia tão ruim.

Ela chegou a uma das margens do rio Uruguai, quando o sol já começava a se esconder. Não muito longe de onde ela estava, porém mais ao norte, se encontrava o salto do Yucumã, uma queda d’água não muito alta, mas de largura impressionante. Eva tinha a informação de que próximo dali, viveria o seu avô, aquele que todos conheciam como o velho Moreyra. Era o lugar ideal para ele, protegido pela queda d’água, que dificultava a penetração das embarcações dos brancos naquele território.

Em volta da fogueira que acendeu, Eva esticou uma esteira e se deitou. Os dois dias de cavalgada cobravam o seu preço. Antes de adormecer, pensou na viagem que havia feito. Como fará para encontrar seu avô? Não havia pensado nessa possibilidade quando partiu da redução e se convenceu de que não deveria pensar nela agora. Para lá, o lugar onde lhe roubaram o amor da sua vida, não voltará mais. Até que, enfim, a órfã se entrega ao sono.

Aquela mesma praia, porém agora, além da chuva, temos o vento. Lá está Eva, em pé, observando a mulher negra que emerge das ondas, em direção à areia. Enquanto caminha, sorri. Um sorriso brilhante. Brilhava mais que a lua cheia.

Ela se aproxima de Eva, os olhos das duas não se desviam. A mulher estende a mão, Eva a agarra. Logo as duas se abraçam. É um abraço forte, como se fossem duas almas gêmeas separadas por muitos anos. A sensação de frio, por causa do vento e da chuva, já não existe mais.

Eva abriu os olhos, mas ainda não podia enxergar nada. A luz da manhã a ofuscava um pouco. Sentiu o sereno sobre a pele de vaca que usava como cobertor, olhou para a fogueira, agora eram só cinzas fumegantes. Então, se sentou, abraçou os joelhos e respirou fundo. Pensava no que fazer naquele dia que se iniciava, quando percebeu que não estava sozinha.  

No começo se assustou. Jogou longe o couro de vaca e levou a mão à adaga que estava ao seu lado. Aos poucos, foi se dando conta de que a figura que estava sentada no chão, a observando, não demonstrava ser ameaça. Era um velho guarani, de cabelos cinzentos, vestido em um poncho surrado, um cajado descansava em seu colo. Ela o olhou fixamente.

̶   Vovô?

O velho ergueu o queixo e respirou fundo. Para Eva, pareceram momentos intermináveis. Então, com uma expressão perplexa no rosto, ele perguntou.

̶   O que faz aqui, minha filha?

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YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 5

Tinha algo estranho com aquela manhã, Eva pressentia. A refeição matinal não havia lhe caído bem, Barnabé andava calado e havia muito pouca gente andando pela redução. Os dois se encaminhavam aos estábulos, como sempre. Desde que se conheceram e ficaram juntos, essa tem sido sua rotina. Selar os cavalos, tocar o gado no pasto, levá-los a beber água, cuidar das vacas, dos terneiros, comer juntos, passear pela campina, ir à missa, enfim. Eva não sentia felicidade maior. Mas, naquele dia, algo a preocupava.

Ao fim da rua de chão batido da redução, dava para se avistar a silhueta de homens montados. Quando se aproximaram, eram em número de quatro. Padre Antônio estava entre eles. A idade já fazia seus estragos no velho sacerdote. Ele já não tinha mais o mesmo cabelo castanho de quando Eva, criança, o conheceu. Os outros eram dois guaranis, fardados com o uniforme do exército espanhol, e um branco, poderia ser um emissário da Coroa.

Padre Antônio deu bom dia e pediu para que Barnabé os acompanhasse. Eva ficou apreensiva, mas a tranquilizaram e pediram que continuasse com os afazeres, logo seu marido se juntaria a ela.

Na manhã seguinte, lá estava Eva, chorando na praça central da redução. Se abraçava na perna de Barnabé que, montado em seu cavalo, tentava acalmar a companheira.

̶   Eu voltarei, meu amor. Não se preocupe.

̶   Por que você? Por quê? Isso não é justo!  ̶  Ela não soltava a perna.

̶   É meu dever. Nosso dever. Quando tudo isso acabe, voltarei.

Um pouco afastado da cena, padre Antônio observava. Seu rosto era de tristeza.

Depois de mais de um beijo e de mais promessas de regresso, Barnabé tocou seu cavalo e acompanhou os demais. Eva assistiu até que o último cavalo dobrasse a esquina da redução em direção à estrada.

Então, ela se voltou para o padre Antônio, com um olhar acusador que o assustou, ele nunca tinha visto Eva assim.

Passaram-se alguns meses, até que chegaram notícias do fronte de batalha. O exército espanhol, no qual estava Barnabé, havia cercado os portugueses em Colônia do Sacramento, mas tiveram que recuar. Estaria Barnabé voltando para casa?

No dia em que os guerreiros guaranis voltariam, todos se puseram na expectativa e muitos já esperavam desde cedo na entrada da redução. Quando o sol começava a se encaminhar para sua descida no céu, era possível avistar pontinhos levantando poeira, no horizonte. Eram eles. O coração de Eva disparou, estava para escapar-lhe do peito.

A expectativa se transformou em decepção quando descobriu que Barnabé não estava entre eles. Pior, estava desaparecido, não sabiam o que havia lhe acontecido, mas o mais certo era que estivesse morto, atolado na lama do fundo do Rio da Prata.

A decepção se transformou em fúria ao avistar o padre Antônio, recém chegado para recepcionar os guerreiros. Ela o interpela logo que se aproxima.

̶   É para isso que nos cria, padre Antônio? Para morrermos pelo seu Rei?

̶   Eva, estamos nas terras do Rei da Espanha. Não há nada que possamos fazer.

O corpo da garota todo tremia, lágrimas começavam a brotar.

̶   Terras do Rei da Espanha? Essa terra é nossa! Era dos meus pais, dos pais dos meus pais!

̶   Mas, Eva…

̶   Chega! Não obedecerei mais a rei nenhum!

Padre Antônio começava a perder a paciência.

̶   Eva, desobedecer o Rei é como desobedecer Deus! Não aprendeu nada do que lhe ensinei?

A garota dá as costas e, com passos firmes, vai até o seu cavalo que pastava ali perto. Montada, ela se aproxima mais uma vez do padre.

̶   Não obedecerei mais seu Rei, nem seu Deus! Que não é o meu Deus, nem dos meus pais, nem do meu avô. Vou agora mesmo pra floresta e vou viver lá, com ele!

A menção ao antigo Moreyra fez o sangue do sacerdote subir.

̶   Você sabe quem é seu avô, Eva? Não te contaram?  ̶  O padre olha ao redor e abre os braços, como se estivesse cobrando explicações das pessoas.

̶   Pois ele é um mentiroso! Sempre foi!

̶   Sim, ele mentia. Mas mentia para ajudar nosso povo! Quando ele distorcia as palavras da sua língua para a nossa, era a verdade que ele falava!  ̶  Eva, agitada, fazia o cavalo dar voltas em torno dele mesmo  ̶  Vocês vieram para tomar nossas terras e nossas vidas! Adeus!

̶   Eva cutucou o cavalo e saiu em disparada, em direção a sua casa, precisava  se preparar para a jornada que a aguardava.

O padre Antônio ficou ali parado. A briga dos dois havia atrapalhado um pouco a recepção dos guerreiros. As pessoas olhavam para ele, alguns se aproximaram para consolá-lo. Logo depois, cada família abraçou seu ente querido e foi para sua casa. O sacerdote ficou um pouco mais, pensativo. Voltou para seus aposentos, num passo muito lento.

Será que ele pensava que esse momento nunca chegaria? Será que Eva voltará? Quem será mais forte, o ensinamento cristão que ele deu, ou as palavras mentirosas de um bruxo? O padre ainda não sabe, mas não será esse o problema que afetará a redução no futuro.

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YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 4

Já fazia três dias que os homens caminhavam naquela floresta. Sabiam de uma aldeia próxima a uma das margens do rio Níger, mas acabaram chegando tarde demais. De algum jeito, os moradores de lá ficaram sabendo da chegada deles. O grupo voltava de mãos abanando para a costa.

O sentimento de fracasso, o calor, os mosquitos, tudo colaborava para tornar aquele regresso mais difícil. Não fosse uma surpresa no meio do caminho. Próximo a uma árvore de largas raízes, jazia uma garota, inconsciente. Com o que ela sonhava? Quem poderia saber? O certo é que o pior dos pesadelos seria preferível ao que a aguardava quando  fosse desperta pelos escravagistas. Para eles, aquela jovem negra era um verdadeiro presente.

Ela ainda não sabia nem onde estava quando seus pulsos foram amarrados.

̶   Caminha, negra!

Ela não entendia as palavras do homem branco de cara barbuda, mas não precisava entender nada. Um puxão na corda e ela já se pôs a caminhar. Atravessaram florestas e rios, subiram e desceram colinas, até que, ao anoitecer, montaram acampamento. A garota sempre com as mãos atadas. Talvez fosse inútil falar com aqueles homens, mas ela nem tentou.

Ao amanhecer recomeçaram a marcha. Quando o sol atingiu seu ponto mais alto no céu, era possível sentir a maresia no ar, se aproximavam da praia. De longe, ela viu muita gente, uma construção de madeira que se projetava mar adentro e embarcações de muitos tipos flutuando.

Quando lá chegaram, havia muitas pessoas negras como ela. Alguns acorrentados, outros amarrados, crianças chorando, lamentos, gritos de ordem, sons de chicote. Nem em pesadelos ela tinha visto algo como aquilo.

Então, a puxaram pela corda, a subiram na plataforma de madeira e a levaram para um daqueles navios. Antes de embarcarem, um homem de vestido preto, com uma cruz pendurada no pescoço, lhe respingou um pouco de água de uma garrafa e lhe disse palavras que ela, mais uma vez, não entendeu.

Ao entrar no porão do navio, quase desmaiou. O calor, o cheiro de suor, vômito, urina e fezes fizeram seu estômago embrulhar, ela levou a mão à boca. Enxotou uns ratos e se sentou em um dos poucos cantos vazios.

̶   Você é muito bonita.

A garota se virou rapidamente para o seu lado direito, de onde partira aquela voz desconhecida. Quem proferiu a frase fora uma outra garota negra, que tinha os cabelos enrolados em pequenas tranças e um inacreditável sorriso nos lábios.

A recém chegada não disse nada, nem agradeceu o elogio, nem sorriu. Balançou a cabeça, fez uma careta e virou o rosto para frente. A outra insistiu com o contato.

̶   Eu me chamo Jerônima.

Mais uma vez, a tentativa de aproximação acabou fracassando.

̶   E você? Tem um nome?

Dessa vez, a garota se virou para sua interlocutora, demonstrando pouca paciência.

̶   Nome? Isso importa nesse lugar?

A garota de tranças sorriu, conseguira, enfim, uma resposta.

̶   Minha irmã, nada mais importa.

Depois de alguns instantes observando o vazio, a recém chegada ao porão, respondeu.

̶   Não sei, não lembro de nada. Não sei nem quem eu sou, nem de onde vim.

Então, a porta do porão se fechou, um movimento de pessoas começou no convés do navio. A hora da partida estava chegando.

As duas jovens que acabaram de se conhecer continuavam lado a lado. A de tranças sorriu e apontou o dedo indicador para a outra.

̶   Vou chamá-la de Odara.

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YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 3

Ela firmou o cabo da lança, feito de taquara, na axila. Divisou o saco de serragem que balançava no galho de uma ampla figueira. Se preparou para a investida.

̶   Concentração, Eva. Mantenha o equilíbrio.

Ao lado dela, estava Barnabé, seu futuro marido. Outro jovem guarani que vivia na redução e que já contava seus 20 anos de idade. Ela, 18. Ele a observava, como se a avaliasse. Corrigia sua postura e dava orientações. Apesar do rapaz parecer rude, quem prestasse atenção em seus olhos, veria que havia orgulho neles.

Eva tocou a barriga do cavalo com os calcanhares e disparou em direção ao alvo, Barnabé a seguia, não muito de perto.

̶   Firme, Eva! Firme!

A lança atingiu em cheio o saco de serragem e se prendeu nele. Eva terminou a investida de mãos vazias.

̶   Muito bem. Foi um bom ataque   ̶   Elogiou Barnabé, se aproximando com seu cavalo.

Eva sorriu, então, ele continuou.

̶   Mas você perdeu a lança. O que faria se isso acontecesse em uma batalha?

A garota foi virando o rosto, bem devagar.

̶   Bom… eu faria…

De repente, num gesto rápido, ela tirou o poncho que usava e o atirou sobre Barnabé.

̶   Isto!

O jovem guarani se enredou como se estivesse em uma teia. Eva aproveitou o momento e disparou a galope. Barnabé levou alguns instantes para se desvencilhar e logo saiu em disparada atrás dela.

̶   Então, é assim?  ̶  Ele tinha um sorriso no rosto, adorava esses joguinhos que ela fazia.

Naquela imensidão verde, apenas os quero-queros eram os espectadores daquela carreira. No fim, foi uma corrida sem vencedor, nem vencido. Os dois terminaram em um pequeno rio, bem raso. Barnabé saltou de seu cavalo, quando se aproximou de Eva, a abraçando por trás. Os dois caíram de suas montarias, sobre a água.

Naquela imensidão verde, apenas os quero-queros e os dois cavalos eram os espectadores do amor entre Eva e Barnabé. Enfim, a garota órfã já não se inquietava tanto sobre seu passado, também ouvia cada vez menos aquele velho chamado que a impelia para fora da redução. Ela apenas vivia sua vida, era até feliz.

O sol começou a se querer se esconder, o casal voltou para casa.

Aquela mesma praia, a mesma escuridão, o mesmo vento. O mesmo cenário. O som das ondas quebrando. Mas Eva não está lá. Ela apenas observa. Algo começa a emergir das ondas. De longe, é apenas uma mancha escura. Mas, quando se aproxima, se vê uma silhueta feminina. A lua joga sua luz sobre a figura. Sim, é uma mulher.

Ela sai da água e se para sobre a areia. Eva nunca viu uma mulher como aquela. Sua pele escura reluz ao luar. Sua boca se abre num sorriso. O brilho dos dentes é arrebatador.

Eva se acordou de um pulo. Estava na sua cama de couro de boi sobre o chão. Ao seu lado, Barnabé continuava dormindo.  

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YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 2

Ela adorava correr por aquelas coxilhas cobertas de campos. O vento acariciando o seu rosto e balançando seus cabelos, a imensidão do céu, os variados tons da verde, tudo isso lhe trazia uma sensação que ela não sabia explicar, mas era boa. E melhor ainda, quando, para estar ali, ela faltava com suas obrigações religiosas.

Antes, até gostava daquela função. Acordar cedo, rezar, fazer o desjejum, estudar latim, fazer aula de canto, rezar, almoçar, sestear, ouvir leituras da Bíblia, rezar mais uma vez. Ela era boa em tudo isso, soube se destacar dos demais na aprendizagem cristã.

Mas, aos 10 anos de idade, ela parecia ouvir um outro chamado, algo que a impelia para fora da redução. E lá estava ela, com seu arco e flecha, feito por ela própria. Enxergou um grupo de perdizes em meio ao capim alto e se preparou. Hoje, a janta no Cotiguaçu[1] seria por sua conta. Ao menos, era isso que imaginava.

̶  Evaaaa!

A corda do arco voltou à posição onde estava, a flecha não foi disparada. As perdizes levantaram vôo com o grito. A menina se virou.

̶  Padre Antônio! O senhor me fez perder a caça.

̶  Agora não é hora para isso. Precisamos nos preparar para a missa. Quero você me ajudando hoje!

O padre precisou caminhar um pouco além do que imaginava para achá-la. Já não era mais tão jovem, mas precisava fazê-lo. Queria que Eva, que ele criou desde nenê, voltasse à rotina da redução.

̶  Mas, por que eu?  ̶  Eva franziu a testa.

̶  Ora, você já sabe. É a melhor aluna que tenho. Além disso, você não é como os outros!  ̶  O padre a fita com seus imensos olhos azuis.

Os dois caminharam em silêncio por uma trilha, ladeada por um capim da altura da cintura de Eva. Algumas figueiras, ao longe, quebravam a monotonia da paisagem campestre. Descendo por um declive, adentraram uma mata fechada, cruzaram um pequeno arroio e se colocaram, mais uma vez, colina acima. Chegando ao topo, avistaram a redução, ao longe. Eva se deteve.

̶  Disseram que meu avô está vivo ainda. Ele mora sozinho lá no meio da mata.

Padre Antônio tinha um grande carinho por aquela menina. Julgava que Deus a havia salvo daquela doença terrível, com algum propósito maior. Como Nosso Senhor tem um grande senso de humor, fez o seu grande inimigo, o feiticeiro Moreyra, em pessoa, entregá-la para ele. Assim acreditava o jesuíta.

̶  Minha criança, você não vai querer viver entre as feras. Você é especial.

Eva abaixou a cabeça e os dois prosseguiram. Atravessaram o campo em que o gado pastava e, depois de alguns instantes, estavam no chão de terra batida da redução.

Vestida na sua túnica de algodão cru, Eva auxiliou o padre Antônio durante a missa. Acendeu as velas, alcançou o cálice e as hóstias, abriu e segurou a Bíblia, enfim. Foi aquilo que se esperava dela.

Porém, à noite, no Cotiguaçu, Ela voltou a pensar na conversa que tivera com o padre Antônio. E, ali, deitada junto com as outras crianças, adormeceu.

Apenas a lua cheia quebra a escuridão na praia. O agito das ondas e o vento forte trazem  sossego para Eva, que apenas contempla aquele cenário. Abre os braços e se deixa tocar pelas sensações que a umidade e o sal lhe proporcionam. Que lugar é aquele?

De repente, pressente que alguém a observa. De longe, avista uma silhueta humana. Seus pés começam a levá-la até a figura desconhecida, ela não pode evitar. Já dá para distinguir que se trata de um homem, o corpo coberto por um poncho, os cabelos escuros até os ombros.

Ela já está há uns cinco passos da figura. É um homem, em idade madura. Desde que o avistou de longe, ele permaneceu imóvel. Agora, ao se aproximar, vê seu rosto, é um guarani, mas, diferente dela, não carrega o colar com a cruz. Ela não sabe porquê, mas sente que o homem lhe é familiar.

Então, ele ergue o braço e aponta para direção do mar. Ela contempla as ondas mais uma vez.

Quem seria àquela hora? Se perguntava o padre Antônio, enquanto acendia a lamparina. A última vez que o acordaram no meio da noite foi para tratar de um parto. Seria a mesma coisa? Ele não tinha certeza. Quando abriu a porta, se assustou um pouco.

 

̶   O que aconteceu, Eva?  ̶  Lá estava a menina guarani, no seu vestido de fibra de algodão cru, acinzentado. Tinha os olhos lacrimejantes.

̶   Padre Antônio, como é o meu avô?

O sacerdote ficou por uns instantes calado, observava a garota e pensava no significado daquela pergunta. Então, se agachou a altura dela e lhe deu um abraço.

[1] Construção da redução onde se abrigava as crianças órfãs.

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YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 1

Aqui começará uma série de postagens, com as origens de Eva, Odara e padre Antônio. Você poderá entender melhor a respeito desses personagens e da webcomic YVY. Embarque conosco nessa história.

Capítulo 1

Quando padre Antônio aceitou a missão de evangelizar os pagãos no interior da América, não tinha ideia do que o aguardava. Para ele, cada dia era uma nova provação naquele mundo esquecido por Deus, onde pobres selvagens viviam abandonados à própria sorte. Sabia que, nos últimos tempos, uma doença desconhecida derrubava os índios que viviam fora da redução, mas não esperava que a situação fosse tão desesperadora.

Os guaranis que viviam nas matas próximas ao rio Uruguai eram resistentes a ideia de viver na redução, sob o controle dos jesuítas. O principal motivo era a liderança de um feiticeiro guarani, inimigo de Antônio, conhecido pelo nome de Moreyra, que fizera de tudo para desacreditar os homens de preto perante os indígenas. Antônio ouviu os rumores de que essa enfermidade, de que ninguém ouvira falar, estava dizimando as aldeias da região. Era um bom momento para um homem de Deus se apresentar e trazer conforto espiritual, além de, por que não, atrair novas almas para o seu rebanho.

Porém, ao chegar a uma dessas aldeias, o padre percebeu que seria muito difícil aumentar seu rebanho com aquelas ovelhas. Era uma aldeia fantasma. O único som era o das moscas, que infestavam o local. Muitos corpos espalhados pelo chão, crianças, adultos e velhos. Estavam como se tivessem se deitado e esperado a morte chegar. Todos tinham o corpo coberto por feridas ensanguentas e purulentas. O inferno deveria ser parecido com aquilo.

O padre desceu do cavalo e foi entrando nos casebres de pau a pique que formavam a aldeia. Em cada um deles, a mesma cena. Pessoas alheias a qualquer ajuda de ordem terrena. Até que, em uma das casinhas, o inusitado. Alguém em pé. Antônio o observou desde a entrada do recinto. A figura estava de costas, os cabelos negros caídos até os ombros. Vestido em um poncho de algodão cru, balançava de um lado para o outro, embalava alguma coisa nos braços. Então, parecendo notar a presença do padre, a figura se virou.

Era Moreyra, seu desafeto. Tinha um olhar derrotado, de súplica, como se estivesse se rendendo. O índio se aproximou, nos braços, tinha uma criança recém nascida. Ele fez um gesto como que oferecendo o bebê para o padre. Ele tomou a criança no colo, foi quando viu que se tratava de uma menina. Também notou que ela, assim como Moreyra, não tinha a pele doente como os demais, pareciam saudáveis.

Assim, o padre Antônio descobriu que, mesmo numa terra sem Deus, milagres acontecem.

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